v de volition
há uma voz perdida na multidão
uma voz que resgata a saudade e sussurra
vem
ou seria
vai
?
língua além mar
no teu hálito atlântico sempre houve
uma estranha escassez
mas tu, de boca em boca, até à memória,
apenas vês o que sobra
na volta,
foram os meus dentes imperfeitos
que te esculpiram a língua.
o regresso impossível
Esboço a névoa na boca das manhãs
( este corpo não cabe num bago de romã )
e como um cão que regressa a casa faminto
desminto todos os sítios por onde amei
Aqui-d’el-rei!
Aqui-d’el-rei!
Submeti a casa à lei e lógica do não-lugar
e agora não sei se poderei voltar.
algures, numa primavera
desconheço a estação que invade as ruas
se o inverno perdura se amanhecem as flores
se fugiste por todos os caminhos da terra ou
aceitaste a espera e os seus dissabores
mas sei, na mais pura noção da palavra,
que até na espera há alma e que tu,
levitando no ar entre dois pensamentos,
contínuas atento aos sinais de abril e
ao declínio febril das minhas sílabas.
ferimento por água-viva
estende-me os abraços à terra, à raiz,
e na semente encontrarás a morada
que eu sempre quis
que fosse
tua.
és o sol que desce, que regressa,
a raiz quadrada da flor
que brota sem pressa
num alento
efêmero.
talvez por isso desapareças e sejas,
o vestígio do tentáculo na pele
o pátio vazio da igreja
infinda espera
viciante
que graceja na memória.
Coro(n)a
Janela. Rua. Vizinho.
Janela. Pássaro. Luz.
As palavras de sempre tornam-se mais cheias
enquanto os gestos se subtraem.
enquanto os convívios se dissolvem.
enquanto nos sentamos à mesa, cabisbaixos,
à espera que se grite um poema
ou que se faça plena a vida à janela.
Será a vida um intervalo
1.
levo-te no peito quase sem conhecer-te
nas flores amarelas que não escolhi
no descafeinado que derramei no balcão
nos passos lentos atrás do caixão
levo-te sem levar
nada mais que isto
2.
é esta a dança das estrelas e dos buracos negros a
dança dos abraços e dos olhares distantes
é este o intervalo divino dos desatinos penetrantes da
dor e do louvor e do (des)amor cortante
é este o eclipse, o despiste final da viatura, a
fortuna de dizer adeus ou até já ou
olá, meu pai e saber que a mágoa será uma grama
ou a ínfima escama de um peixe magro e feio
é este o dia em que caímos desamparados e aprendemos
no sossego de um poema isento de veneno que
somos feitos de estrelas e que para as estrelas
voltaremos.
poema aos três filhos que nunca teremos
as pulsações, meras ondas mansas, detêm-se ao ver-te passar
não vamos ver as crianças caírem das bicicletas nem
as crianças picarem-se nos cardos
no fundo das pupilas gastas na introspecção
apenas contemplaremos uma escuridão maior, vinda dos montes,
o tipo de escuridão que consola os sonhos e concede força ao mar
não seremos mais que ruídos extenuados, ruídos da noite,
flores brancas e macias fustigadas pelo vento salgado
não seremos mais que pontos finais ausentes
poemas imprudentes e tediosos e impossíveis de formular
como crianças que caem e crianças que se picam
não seremos mais.
pron. indef.
no amor e na morte, as flores.
na sorte e na derrota, a aposta.
na carroça e no carro, os cavalos.
será que ninguém repara
que somos tão tudo
e tão nada?
Portus Magnus
(para a minha cidade natal)
revivo os pinheiros-bravos do Velho Mundo, a areia fina e incómoda, todos os beijos de sal e aflição. revivo-te na pele como quem anseia o avesso dos dias. como quem acredita que um poema pode rasgar o tempo. o espaço. a tormenta. porque sei, no fundo das sombras, que é tua a mão que toca a pele das sílabas.